| Ella |
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de Herbert Achternbusch Esta peça foi feita em 1993 pela mesma equipa que agora a repropõe, com excepção de Amélia Varejão que, na altura, fez a mãe, como seria de esperar.Esta nova viagem pretende-se obviamente diferente da primeira. Em primeiro lugar porque não é possível, nem tem sentido, refazer o mesmo. Seria absurdo, tão absurdo como pretender rejuvenescer no sentido crono-biológico do termo. Em segundo lugar porque de lá para cá aconteceu tanta coisa, a passagem do milénio, o Iraque, a Europa a vinte e tais e por aí adiante. O que constitui um novo contexto que o espectáculo não poderá ignorar. O que nos move agora é uma nova criação, feita certamente em condições mais propícias que as primeiras [não me esqueço desse inverno de humidade colada a pele, noites a fio de ensaios numa gruta sem aquecimento e numa situação de grande precariedade produtiva]. Uma nova criação certamente mais pausada e espessa, com outra idade mas não com menos empenhamento e energia, num espaço contentor diferente, a caixa cénica do São João. E de lá para cá andámos de Rendimento Mínimo Garantido para Rendimento Social de Inserção regressando agora de novo ao Rendimento Mínimo Garantido. O que diz coisas sobre as Ellas deste mundo mas também e infelizmente, sobre o teatro. Ele também por aí anda, necessitado, com Ella. Por isso o espectáculo é também uma metáfora do nosso teatro, biodegradável, como todos nós, felizmente. FÁBULA COMENTÁRIO É uma história verídica, aqui obviamente ficcionada. Mas ficcionada a partir de uma memória directa. Herbert Achternbusch fala do que sabe, da sua família, dos seus, de si mesmo. Na Baviera conservadora, profundamente religiosa, em que nasceu, as Ellas são a expressão mais radical de uma subalternidade da mulher que é, por assim dizer, cultural. O que é facto é que no mundo estas situações se repetem, criaturas humanas a viverem em condições próprias de animais. O galinheiro é a assoalhada que a família “generosamente” lhe cedeu. Não foi à muito que na Ucrânia, essa Europa que há-de vir, encontraram uma criança que crescera no meio de cães e que, com eles, se comportava como um cão. Uma história de abandono, aparentemente desenrolando-se à frente dos olhos de muita gente. Mas Ella está muito para além da sua própria história. Se essa é a da humanidade negada, o pano de fundo histórico em que tem lugar, não deixa de sinalizar uma outra barbárie, o nazismo. E mesmo quando a peça se afasta desse tempo histórico é o pragmatismo economicista dos novos tempos que continua a condená-la a viver à parte, um verdadeiro apartheid familiar e social. Fazer este texto é voltar a questionar a chamada sociedade dos dois terços. Será possível continuar a viver assim, mantendo os “intocáveis” de todo o numa margem controlada, como lixo na lixeira e ao mesmo tempo criar essas novas cidades onde só entram os que têm chave? Quantos muros se estão a erguer de novo, agora que o de Berlim é uma memória? Como trabalho teatral é um grande desafio, uma longa fala construída numa infralíngua, uma língua inculta e agramatical, bebida na fonte da outra mas fruto de maus tratos, de choques eléctricos e de uma deficiência que se foi acentuando. Porque Ella, como se diz hoje, é diferente. E isso também atrai. UMA PEÇA PARA DOIS INTERPRETES e várias galinhas O texto será interpretado por: Fernando Mora Ramos – Joseph Margarida Mauperrin - Mãe EQUIPA ARTÍSTICA Tradução: Idalina Melo / Isabel Lopes Encenação: Fernando Mora Ramos Assistência de encenação, dramaturgia e direcção de ensaios: Isabel Lopes. Cenografia: José Carlos Faria Iluminação: Fernando Mora Ramos e António Plácido Construção: António Canelas e Marco Albano Produção: Ana Pereira |
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Esta peça foi feita em 1993 pela mesma equipa que agora a repropõe, com excepção de Amélia Varejão que, na altura, fez a mãe, como seria de esperar.