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Ella versão para impressão
de Herbert Achternbusch

Esta peça foi feita em 1993 pela mesma equipa que agora a repropõe, com excepção de Amélia Varejão que, na altura, fez a mãe, como seria de esperar.
Esta nova viagem pretende-se obviamente diferente da primeira. Em primeiro lugar porque não é possível, nem tem sentido, refazer o mesmo. Seria absurdo, tão absurdo como pretender rejuvenescer no sentido crono-biológico do termo. Em segundo lugar porque de lá para cá aconteceu tanta coisa, a passagem do milénio, o Iraque, a Europa a vinte e tais e por aí adiante. O que constitui um novo contexto que o espectáculo não poderá ignorar. O que nos move agora é uma nova criação, feita certamente em condições mais propícias que as primeiras [não me esqueço desse inverno de humidade colada a pele, noites a fio de ensaios numa gruta sem aquecimento e numa situação de grande precariedade produtiva].
Uma nova criação certamente mais pausada e espessa, com outra idade mas não com menos empenhamento e energia, num espaço contentor diferente, a caixa cénica do São João.
E de lá para cá andámos de Rendimento Mínimo Garantido para Rendimento Social de Inserção regressando agora de novo ao Rendimento Mínimo Garantido. O que diz coisas sobre as Ellas deste mundo mas também e infelizmente, sobre o teatro. Ele também por aí anda, necessitado, com Ella. Por isso o espectáculo é também uma metáfora do nosso teatro, biodegradável, como todos nós, felizmente.

FÁBULA

Em Ella a velha mulher que dá o seu nome à peça “vive” com Joseph num galinheiro. Está totalmente absorvida pela programação de televisão e não pronuncia uma palavra. Joseph prepara em silêncio o café que apenas beberá no fim da peça. Mistura nesse café um veneno mortal, depois coloca uma peruca de penas de galinha e, vestido com o avental da mãe, começa de repente a debitar sem nunca mais parar para recuperar o fôlego, a regurgitar o solilóquio que Ella, a sua mãe, calou durante toda a sua vida, dos anos do nazismo aos do boom económico, de decepção em decepção. Joseph engole finalmente o café e cai enquanto a mãe se levanta e anda às voltas no galinheiro dando gritos de galinha assustada.

COMENTÁRIO

É uma história verídica, aqui obviamente ficcionada. Mas ficcionada a partir de uma memória directa. Herbert Achternbusch fala do que sabe, da sua família, dos seus, de si mesmo. Na Baviera conservadora, profundamente religiosa, em que nasceu, as Ellas são a expressão mais radical de uma subalternidade da mulher que é, por assim dizer, cultural.
O que é facto é que no mundo estas situações se repetem, criaturas humanas a viverem em condições próprias de animais. O galinheiro é a assoalhada que a família “generosamente” lhe cedeu. Não foi à muito que na Ucrânia, essa Europa que há-de vir, encontraram uma criança que crescera no meio de cães e que, com eles, se comportava como um cão. Uma história de abandono, aparentemente desenrolando-se à frente dos olhos de muita gente.
Mas Ella está muito para além da sua própria história. Se essa é a da humanidade negada, o pano de fundo histórico em que tem lugar, não deixa de sinalizar uma outra barbárie, o nazismo. E mesmo quando a peça se afasta desse tempo histórico é o pragmatismo economicista dos novos tempos que continua a condená-la a viver à parte, um verdadeiro apartheid familiar e social.
Fazer este texto é voltar a questionar a chamada sociedade dos dois terços. Será possível continuar a viver assim, mantendo os “intocáveis” de todo o numa margem controlada, como lixo na lixeira e ao mesmo tempo criar essas novas cidades onde só entram os que têm chave? Quantos muros se estão a erguer de novo, agora que o de Berlim é uma memória?
Como trabalho teatral é um grande desafio, uma longa fala construída numa infralíngua, uma língua inculta e agramatical, bebida na fonte da outra mas fruto de maus tratos, de choques eléctricos e de uma deficiência que se foi acentuando. Porque Ella, como se diz hoje, é diferente. E isso também atrai.

UMA PEÇA PARA DOIS INTERPRETES e várias galinhas
O texto será interpretado por:
Fernando Mora Ramos – Joseph
Margarida Mauperrin - Mãe

EQUIPA ARTÍSTICA

Tradução: Idalina Melo / Isabel Lopes

Encenação: Fernando Mora Ramos
Assistência de encenação, dramaturgia e direcção de ensaios: Isabel Lopes.
Cenografia: José Carlos Faria
Iluminação: Fernando Mora Ramos e António Plácido
Construção: António Canelas e Marco Albano
Produção: Ana Pereira
 
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