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O Teatro da Rainha estreou em ANELHE, a 20 de Setembro, “O soldado vigilante”, entremês cervantino. Dos amores amplamente suspirados do soldado por Cristina resultou o casamento desta com um sacristão fugido da coroa, mais inclinado a tocar os sinos como serenata para a amada.
Anelhe é no coração de Trás-os-Montes, a escassos quilómetros de Chaves e da Galiza. Aldeia do tal Portugal profundo nela se vive entre a memória de outros tempos, a gesta emigratória presente nos rituais de verão e o tempo que passa, menos duro mas porventura mais empobrecido colectivamente de uma cultura própria, expressa na tradição oral mas também na própria qualidade da quarta classe antiga, de mais gramática e relevando mais o exercício da memória, essa raiz do que somos individualmente também.
Pode dizer-se que apesar dos progressos homogeneizadores da aldeia global, esse colonialismo planetário, muito daquilo que é profundo do tal Portugal profundo resiste ali pela positiva: o amor à paisagem como que tocando-a quando dela se fala, dos ciclos da natureza, um feitio talhado no granito que traduz autenticidade dos comportamentos, surpreendendo pela resistência a uma “formatação” classe média generalizada. Na realidade a palavra profundo tem a ver com lastro, profundidade, autenticidade, com aquilo que vem dos tempos e fala como lições da própria identidade e da natureza, mãe e espelho de feitios mais que paisagem a contemplar.
E o que estivemos a fazer em Anelhe? Convidados pelo pintor João Vieira, ilustre filho da terra, com o apoio da Câmara de Chaves e da Junta de Freguesia de Anelhe e com actores voluntários de Anelhe, “metidos” numa garagem-adega, realizámos a parte “cómica” de uma extraordinária festa – 12 horas de vitela do Marão a assar e comer, eis o tempo. A festa? Os cinquenta anos de sacerdócio do Padre Arnaldo, amado pela capacidade de dar o que não tem, tal como Cristo ensinou. O êxito da iniciativa foi tal que se pode dizer que naquelas paragens do Alto Tâmega ninguém a ignorou. E pediram mais. Foram várias as aldeias a contactar o teatro e os organizadores, no sentido de uma repetição de “qualquer coisa parecida” já para o ano. Haja vitela, dizemos nós!
Mas o mais inesperado é que nos preparamos para partir para Cluj, na Roménia, para representar “Ella”, num teatro da minoria húngara dessa região.
Trata-se do Festival da União dos Teatros da Europa, a mais destacada associação de teatros públicos deste continente, fundada por Strehler, Jack Lang e pelo genial Bergman, através do seu Dramaten, sedeado em Estocolmo.
Não deixa de ser curioso e motivo de orgulho que a participação portuguesa seja assegurada por uma companhia apoiada pelo Estado em 120.000 euros – esta associação integra teatros públicos cujos orçamentos são, de modo geral, superiores a seis/sete milhões de contos na moeda antiga, para não falar dos apoios do Piccolo ou Dramaten.
Muito nos honra esta presença, depois de já termos participado na edição do Portogofone em 2007, iniciativa promovida pelo TNSJ e pela UTE, de que faz parte o próprio TNSJ, nosso parceiro maior, por lúcida escolha de Ricardo Pais e José Luís Ferreira.
Em Cluj estaremos, a 10 e 11 de Novembro, no sofisticado meio do teatro profissional público da Europa alargada. Como se sabe, a tradição dos países do Leste europeu é riquíssima e alarga agora o espectro do que renovadamente, depois da queda do muro, possa ser o teatro europeu. Que é o que nós somos, Teatro da Rainha, principalmente quando em Anelhe levamos a palavra de Cervantes ao povo afastado de todos os centros. Ali, em Anelhe, só há mesmo televisão, o que, segundo eles dizem, ajuda a adormecer além de espalhar a “boa nova” de uma iliteracia cavalgante, como dizia o amigo Tomás.
Fernando Mora Ramos |