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Publicado por Fernando Mora Ramos
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O país é de estadões, já o dizia Clenardo retratando no quotidiano de Lisboa as famílias que exibiam os seus escravos nas ruas e se alimentavam de rabanetes na intimidade muda das paredes domésticas. O Dona Maria é um pouco isso: um desejado cargo, a importância do Rossio, a sombra do Garrett dândi, o desejo de um rapaz de Montalegre ou algarvio se alcandorar a uma importância fundadora na família, uma vontade jurídica reformadora, uma ideia contabilística, um projecto tão europeu que nada português, um lugar para um amigo, o passeio de uma diva literária, o topo de carreira de um funcionário público, uma ambição de privatização para se regressar aos tempos respeitadores da Cultura com C de elite, tudo menos teatro e tudo menos nacional. A que se deve esta incapacidade de dar destino de projecto a uma instituição pública? Porque é que é nos determina a visão criativíssima de uma inconsistente diversidade e os flirt’s circunstanciais na definição de escolhas que teriam que ser fundadas? |
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Publicado por Fernando Mora Ramos
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O Teatro da Rainha estreou em ANELHE, a 20 de Setembro, “O soldado vigilante”, entremês cervantino. Dos amores amplamente suspirados do soldado por Cristina resultou o casamento desta com um sacristão fugido da coroa, mais inclinado a tocar os sinos como serenata para a amada.
Anelhe é no coração de Trás-os-Montes, a escassos quilómetros de Chaves e da Galiza. Aldeia do tal Portugal profundo nela se vive entre a memória de outros tempos, a gesta emigratória presente nos rituais de verão e o tempo que passa, menos duro mas porventura mais empobrecido colectivamente de uma cultura própria, expressa na tradição oral mas também na própria qualidade da quarta classe antiga, de mais gramática e relevando mais o exercício da memória, essa raiz do que somos individualmente também. |
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Publicado por Fernando Mora Ramos
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De relevar o facto de saírem dois ministros de pastas tão díspares e tão próximas, embora a saúde cultural dos portugueses nada importe, não é, não tem sido, objecto de uma política. Desde Carrilho e Nery que é navegação à vista, episódios, fundo de delegação presidencial, gestão avulso de conflitos evitáveis, de Berardo ao Museu de Arte Antiga, passando pelo Dona Maria, cantina de tudo e nada no mato lisboeta, para os mesmos mais os de esquerda, pasme-se, sempre de esquerda aliás. |
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Publicado por José Carlos Faria
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«Não tenho safa, parece. Saio do camarim assobiando (...) para o maior número do espectáculo, a minha rábula, prometido no cartaz e já previsto há muito (...). Depois o salto mortal lá mais pró fim, no trapézio sem rede sem esperança sem avé-marias sem nada. Olho para baixo, sinto o medo dos tipos da plateia, uns cagões mortos de medo que devia ser o meu e eu tenho, rapazes! e eu escondo, cavalheiros! detrás da minha fatiota larga, sarapintada, cetim fulgurante a sete e quinhentos o metro, fato de palhaço barato para melhor e mais os intrujar, ofender, insolências de polichinelo feitas a rir para gente que dá vontade de rir - e quem neste suave país não há-de querer rir, mesmo com o rabo cagado de medo? (...)
- e é tão fácil a um morto rir! e é tão fácil rir de um morto!... (...) Os tambores vão atacar num rufo calculado cúmplice da minha morte (...). Olho o País da Gargalhada e rio convosco. Choro, talvez, oh que vergonha! Oiço o tambor. É agora!
(Luiz Pacheco in «Os Namorados», Editorial Estampa)
O Pacheco, animal «crocodilupa», é um daqueles em quem nós coincidimos e reincidimos: Gostamos. Gostamos muito, pronto! Gostamos à brava! E é assim desde há muito tempo... |
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Publicado por José Carlos Faria
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Que havia de fazer?
Buscar um protector potente, uma figura,
(...)
Pelas manhas trepar,sem subir por justiça?
Não, graças! Ir prestar, como eles todos vão,
meus versos á finança? E tornar-me um bufão
na esp'rança vil de ver, nos beiços de um ministro,
um sorriso a nascer que não seja sinistro?
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