Em Preparação| Estreia Outubro
Dramoletes - O coveiro
de Thomas Bernhard
Dramoletes - O coveiro
de Thomas Bernhard
Os “dramoletes” são formas breves. E falam portanto de modo conciso e certeiro. Não divagam, escalpelizam. Não nos dão tempo para variações, vão direitos ao conflito e expõem as contradições. Do que tratam? Da sobrevivência de formas de mentalidade nazi, num ambiente que, pelos vistos, mantém as condições do seu reaparecimento. Um ambiente que mistura um catolicismo fundamentalista com as técnicas da sociedade do espectáculo.
No primeiro dramolete, duas beatas saídas da Igreja, maldizem os turcos que se aproximam do cemitério e uma delas, excitada, promete gaseá-los;
No segundo, a esposa de um polícia extenuado, entre a perversidade mórbida da necessidade de violência para impor tranquilidade social e o sexo a fazer, põe a nu o seu primarismo de candidata a mulher dos SS; No terceiro, a visão alucinada de um morto traz à tona a actividade “normal” de uma colagem de cartazes com cruzes suásticas;
Estaremos perante um teatro político? Certamente, mas na sua melhor forma, isto é, teatro não panfletário, teatro de uma identificação a cru das taras pós modernas do conservadorismo que, como poder, continua nesta Europa do pós-guerra a governá-la em conúbio com o pior dos fanatismos.
Política no sentido mais nobre, o da exposição clara do que os meios de desinformação da realidade tentam sempre: camuflar o que é monstruoso na sua bestialidade e tido como normal, ou pela ausência de notícia ou pelo excesso da sua exposição. Quanto mais se dramatiza menos de dá a ver, quanto mais se “sensacionaliza” menos se dá perceber.
Eis a contra-estratégia dos “dramoletes”: fazer o retrato indesmentível do pior da história europeia como vida coetânea e normalidade aceite, o nazismo, num gesto claramente acusador.
No primeiro dramolete, duas beatas saídas da Igreja, maldizem os turcos que se aproximam do cemitério e uma delas, excitada, promete gaseá-los;
No segundo, a esposa de um polícia extenuado, entre a perversidade mórbida da necessidade de violência para impor tranquilidade social e o sexo a fazer, põe a nu o seu primarismo de candidata a mulher dos SS; No terceiro, a visão alucinada de um morto traz à tona a actividade “normal” de uma colagem de cartazes com cruzes suásticas;
Estaremos perante um teatro político? Certamente, mas na sua melhor forma, isto é, teatro não panfletário, teatro de uma identificação a cru das taras pós modernas do conservadorismo que, como poder, continua nesta Europa do pós-guerra a governá-la em conúbio com o pior dos fanatismos.
Política no sentido mais nobre, o da exposição clara do que os meios de desinformação da realidade tentam sempre: camuflar o que é monstruoso na sua bestialidade e tido como normal, ou pela ausência de notícia ou pelo excesso da sua exposição. Quanto mais se dramatiza menos de dá a ver, quanto mais se “sensacionaliza” menos se dá perceber.
Eis a contra-estratégia dos “dramoletes”: fazer o retrato indesmentível do pior da história europeia como vida coetânea e normalidade aceite, o nazismo, num gesto claramente acusador.
Fernando Mora Ramos
Carta aberta à Ministra Canavilhas
- sobre os modelos organizativos do teatro -
Exma. Senhora Ministra Gabriela Canavilhas,
Pacheco Liberal Pereira
Quem te lê, Pacheco? Muito poucos. Muito menos do que aquele número de companhias de teatro e seus espectadores que acusas, sem conhecer, como se fossem todas um único projecto, de delapidarem o erário público, mesmo reconhecendo o nada que recebem e de não realizarem trabalho artístico – deverias saber, até por norma académica, supondo que investigas para fazer história, que não se afirma o que quer que seja sobre o trabalho de terceiros sem o conhecer, sem ir às fontes, o que no caso obrigaria a ver as representações das estruturas de criação, mas, mais que isso, a inscrever no tempo e de modo reflectido metodicamente o que, em muitos casos, perdura quase desde Abril e reflecte políticas de reportório, revelação de autores de qualidade consensual em termos europeus, envolvimento de públicos em cifras que poderíamos referir como ultrapassando o epifenómeno (a tal quantidade, logo apelidada de tribal e circuito fechado, quando globalmente, são dados oficiais, do INE, terá atingido 1 milhão de espectadores em ano recente) e mesmo experiência artística no sentido da experimentação, da tentativa de elaboração de linguagens e do sucesso relativo de tudo isso, experimental justamente, erro a repetir melhor ou pura falha.
Quem te lê, Pacheco? Muito poucos. Muito menos do que aquele número de companhias de teatro e seus espectadores que acusas, sem conhecer, como se fossem todas um único projecto, de delapidarem o erário público, mesmo reconhecendo o nada que recebem e de não realizarem trabalho artístico – deverias saber, até por norma académica, supondo que investigas para fazer história, que não se afirma o que quer que seja sobre o trabalho de terceiros sem o conhecer, sem ir às fontes, o que no caso obrigaria a ver as representações das estruturas de criação, mas, mais que isso, a inscrever no tempo e de modo reflectido metodicamente o que, em muitos casos, perdura quase desde Abril e reflecte políticas de reportório, revelação de autores de qualidade consensual em termos europeus, envolvimento de públicos em cifras que poderíamos referir como ultrapassando o epifenómeno (a tal quantidade, logo apelidada de tribal e circuito fechado, quando globalmente, são dados oficiais, do INE, terá atingido 1 milhão de espectadores em ano recente) e mesmo experiência artística no sentido da experimentação, da tentativa de elaboração de linguagens e do sucesso relativo de tudo isso, experimental justamente, erro a repetir melhor ou pura falha.







