A peça de David Lescot começa por não ser uma peça no sentido convencional do termo, não sendo portanto analisável pelos parâmetros das poéticas vigentes. O modo como o autor monta um conjunto de cenas – verdadeiro rapsodo reunindo fragmentos de fábulas, formas plásticas e espectaculares – em sequência nada dramática e entrelaçado numa fábula âncora mínima, pertence mais a uma ideia de texto-espectáculo que de teatro contido numa peça como exploração dramatúrgica das suas virtualidades cénicas.
Na verdade nada se passa no meio de tanto activismo expressivo e organizativo: num concurso de performances num dado “enclave” da comissão europeia, com gente de todos os países da Europa, a verter em directo por um corpo de interpretes nas vinte e sete línguas num pressuposto trânsito de todas as línguas entre si, um performer português tenta a sua sorte agindo entre o vampirismo plagiador e a pequena intriga, uma instaladora alemã exorciza num acto minimal repetitivo a instituição do voto como uma missa laica de fisicalidade radical, um poeta épico vagueia, caminhante europeu infatigável, ao sabor de uns versos ex pós alexandrinos híper visuais e quotidianizados, um compositor ensaia em tentativas sucessivas um novo hino da Europa a contrapor ao de Bethoven, uma artista eslovaca não visível conta a biografia aventurosa de uma judia de leste que casou em Paris em 42, Maritza W., um conjunto de coralistas do Leste da Europa encontra-se à volta da música como quem encontra uma pátria vital, e duas funcionárias, quadros superiores da Direcção-Geral, tentam pôr ordem por via da razão burocrática no que é uma entropia geral e através de um verdadeiro projecto ovo de Colombo: a intercompreensão passiva (forma de, falando cada um a sua língua, entender o outro.)
O projecto está desde início bloqueado, submerso na sua impossibilidade de escala e no seu falso democratismo: caminha acriticamente na simulação de um acto democrático e à realidade física dos factos e dos projectos, à sua consequência e finalidades, substitui-se o espectáculo da sua degradação e o simulacro poseur de uma qualquer razão de ser – para quem está de fora as coisas parecem ser, para quem está dentro nada é, e a frustração é o resultado do igualitarismo burocrático e do decisionismo autoritário, mecanismos que conformam o modo de poder da burocracia. Assim vemos no espectáculo/texto, sistema de pequenos espectáculos dentro do espectáculo e de curtas elipses precipitando-se pelo caos vigente num naufrágio final – coito sócio artístico permanentemente interrompido - a trama avançar lentamente para a mesma impressão que se tem de início: a Europa não existe, existe um mecanismo administrativo, monetário/financeiro, de rosto oculto no rosto testa de ferro reconhecível e que, a partir de um Directório dominante e centrado em interesses próprios, dirige uma Europa irrepresentável na sua diversidade centrífuga enquanto viver sem propósito centrípeto culturalmente integrador.
O desencontro entre a vitalidade de algumas culturas que se expressam de modo comunitário, como acontece na peça com a música judaica de tradição europeia, Klezmer e Sefardita, aqui sinal de um entrosamento, e a impossibilidade comunitária de uma Europa a 27 torna-se paradoxo e paradigma no espectáculo. Mas o texto/espectáculo teatralizando uma burocracia obcecada por uma disciplina linear – como na tropa – para controlar a performance global da identidade europeia que se anuncia, vai mais longe porque mostra como apenas espartilha a possibilidade de ser europeu em actos fragmentários, absurdos e rápidos, prematuros, recusando sequer reflectir e impedindo pela gestão do tempo e autoritariamente, que uma certa desordem saudável se possa converter em harmonia de diversidades tentada – o tempo da respiração crítica não existe e a expressão de posições é neutralizada pelo fluxo constante de um activismo sem substância, frenético e progressivamente psicótico no ambiente criado. Além disso, a existência de actos censórios expressa bem uma vocação autoritária, ditatorial e indiscutível, do que vem de cima e é definitivo. Nunca as normas mandaram tanto e nunca os projectos foram tão inócuos, sem verdadeiro espaço de exposição, de clarificação, numa relação entre fazedores e receptores, artistas e cidadãos, e a cada passo a ausência de um desígnio comum por assumir na diversidade cultural das posições expressas é visível de modo gritante. É uma Europa das decisões de cima políticas contra a possibilidade de uma Europa das culturas e identidades genéticas e fundacionais, constitucionais, dos povos.
O propósito Europeu comunitário dos burocratas é apenas a capacidade de adiarem um futuro que não se pode fazer à margem de uma verdadeira cumplicidade entre culturas, com tudo o que isso implica: intercâmbio entre línguas e entre patrimónios culturais e identidades diversas, interpenetração de visões culturais distintas num mosaico comum que tem de se forjar também como identidade própria, isto é, uma Europa constituída pelo seu melhor, o património democrático e cultural, da matriz grega à Revolução Francesa, de Ésquilo à Comuna de Paris, de Shakespeare a Beckett, de Cícero a Rosa Luxemburgo, de Camões a Joyce, de Bethovan a Berio, etc. A malha de tal rede, potencial, articulável e integrável em todas as suas inter-relações possíveis, construiria caminhos intermináveis e estimulantes em torno das mesmas questões éticas, estéticas, cívicas e organizativas – uma Europa, crítica constante de si mesma, no caminho de um desígnio sem pausa de liberdade económica, de libertação humana, de trabalho e prazer, de solidariedade e fraternidade.
Em boa verdade, como pensar a Europa sem questionar os legados políticos da revolução francesa para cá? E as revoluções operárias, e as duas guerras, e os campos de concentração? E a americanização crescente e as soluções vulgarizadoras da nossa vida em comum que, apostadas na igualdade de oportunidades, vão cavando novos fossos e criando novas elites de bem-estar, protegidas em novos castelos e condomínios, pelas armas de novas polícias privadas e pelo poder do Estado ao seu serviço, como na idade média?
Todos estes aspectos constituem a história da Europa recente e Lescot revela-os com ironia acentuando o modo como a americanização da Europa, a vertigem operacional e prá-frentista de dinâmicas lançadas arbitrariamente pelo corpo dirigente europeu sempre em chave contabilística – comissão, funcionários, parlamento – e que vai destruindo o que a Europa pudesse ser se fosse menos obcecada pela imitação destes modelos exclusivamente tecno-económicos: cresce uma ilusão de movimento simulado como na anedota do comboio em que, fechando as cortinas e abanando os corpos, se imagina que está a andar para uma estação determinada.
E o espectáculo segue uma estratégia rapsódica, juntando formas espectaculares e fragmentos dialogados, como se disse. A mistura entre a instalação performativa, o poema épico contemporâneo, as tentativas de hino europeu simplificado para entrar no ouvido, as intervenções sempre harmónicas de um coro judaico não assumido, a performance acidental e final do português Calisto Quim, a radicalidade corpómona da dupla alemã que desenha fisicamente o ritual da votação democrática e as intervenções das organizadoras de serviço ao caos possível, estabelecem a presença de uma Europa ingovernável e sustentada apenas pela gestão dos fundos, no caso circunstanciais, de uma Europa Workshop.
Esta composição heteróclita é um outro, em cena, das relações inexistentes e aqui forçadas, da Europa a 27 que se formou como se fosse possível pela decisão das burocracias dominantes e à margem de verdadeiros encontros culturais, criar um espaço europeu para além da circulação das mercadorias e dos fluxos de dinheiro, com todas as crises existentes e por vir. De facto, como se viu e no meio de tanta retórica sobre regulação dos mercados, quem mais ordena são os especuladores.
Fernando Mora Ramos
O Fóssil Falante
Que a pedra fala ninguém duvide. É património, memória, estatuto museológico, coisa portanto digna. Na pedra: o ser colectivo, a gesta da pátria, mais ou menos ferrugem e actividade hortícola espontânea. Por onde andará o montante de D. Afonso? Que bateu na mãe não interessa nem vem ao perfil do fundador, o que interessa saber é que cortou a cabeça a uma chusma de mouros de uma só espadeirada e mesmo a uns reles cristãos que traçavam mal o sinal da cruz, metendo primeiro o dedo rabelaisiano na barriga e não na testa – não frequentaram uma boa escola, colégio com matinas e vésperas de boa prática, ralé pendurada na preguiça, na boa vida, tasca e petisco mais perdições do corpo, diabos comunitários.
Agora que novos cristãos e novos mouros traçaram uma “nova” linha divisória fictícia, fronteira cavada em ideologia de morticínios militantes, a recuperação da imagem do primeiro Rei de Portugal, o fundador, como matriz inspiradora da “nova” linha de um antagonismo sem trégua a eternizar em estratégias sucessivas de forças no terreno e contra-informação criativa, é uma necessidade instante. Levantemos o montante contra os suicidas disfarçados de pessoas e antes que expludam zás, montantes ao alto, cabeças a rolar. Teremos de o fazer obviamente on-line e através de uma profusão de software lúdico suficientemente violento para estimular nas criancinhas o ódio antagonista no meio do “todos iguais, todos diferentes” do politicamente correcto.
Mas estes são assuntos de política internacional e próprios desse filme pobre chamado incessantemente aos palcos globais que não interessam ao cantinho, de novo cantinho à beira-mar plantado e de novo perdido na dívida e seu tratamento – aqui os danos colaterais caminham para que a criança vá com a água do banho e que a banheira passe a pagar renda ao patrão de fora, ficando-nos a depressão e as mãos vazias.
O salazarismo voltou, se isso significa um fechamento do verdadeiro desígnio europeu e uma conformação da vida dos portugueses, seu imaginário e práticas diárias, ao valor da dívida, isto é, ao tamanho pequeno não propriamente do mercado, esse pode encontrar tamanhos de elasticidade vária, mas à negação e um desígnio nacional como verdadeira nova internacionalização (a da geografia da língua e a da economia real levadas a sério) que nos levasse desta tragédia de sermos vítimas eternas de uma deriva constante da unilateralidade financeira – o outro começou Ministro das Finanças e deu rapidamente em torcionário complacente antes de cair da cadeira. Não faltou a isso uma tacanhez provinciana – aliás esta coisa de “os portugueses são capazes”, esse tipo de paternalismo que andam para ai a vomitar enoja e revolta – que agora regressa em força no discurso dos governantes e dos opositores, todos de facto muito analfabetos, iletrados e incultos, ao contrário da tradição de uma certa política republicana e letrada.
Se pensarmos que nos andaram a vida toda a meter na cabeça o respeito por alguns símbolos arquitectónicos, cultivado em momentos de transfiguração exaltada de vida no meio dos dias de andar a dias - rituais leia-se -, logo percebemos que a pedra é mais que pedra e que a sua química degenerescência acrescenta patine à simbólica dando-lhe profundidade (agora diz-se densificar, talvez). Essa patine, justifica aliás, que muitas vezes o património seja mais pátria e pedra degradada que pedra refeita e futuro ali, na pedra pois, esclarecido como forma do porvir. Porque a pedra pode de facto, não sendo jangada, ajudar a viajar para um à frente que misture duas possibilidades: ser as coisas boas que outros até já foram – uma certa Europa para trás – e ser as coisas boas que nunca existiram mas que são humanamente possíveis, uma verdadeira Republica, uma comunidade. Mas nem este nível do discurso hoje passa. Nem à esquerda nem à direita, todos com o ferro no pé, escravos da dívida por fatalidade de destino e coexistência parlamentar, de joelhos perante o deus não da economia mas das finanças, o grande contabilista, o do caminho único. E não passa porque esse discurso, liberto de subalternizações à ditadura orçamental, pressupõe um plano, uma estratégia expansiva, o futuro, um futuro e ideias de futuro, pensamento emergente que organize os caminhos possíveis por dentro das inamovíveis decisões da inevitabilidade das medidas para combater a dívida, mas principalmente pela capacidade de gerar alternativas globais, socialmente globais.
Mas este assunto pátrio da pedra refinou: neste afã de patrimonialização generalizada para turista ver, somos metidos a papalvos no espectáculo possível de um simulacro de singularidade identitária, vendável a olhos estranhos – se para tal for necessário que façamos de atrasados simpáticos e que tudo o que façamos seja de uma espécie de incompetência ingénua e autêntica, então seremos papalvos, papalvos batendo continência interior nos sorrisos ao passante com pilim a falar inglês - talvez isso seja um emprego, e qualificado, para o perfil do português tipo, se existe. O procedimento é simples: tudo pode tornar-se espectáculo do que foi, a pesca, o moinho de mó, as rendas de bilros, as próprias criaturas de uma aldeia “típica” podem tornar-se as personagens de si -mesmas e encontrar nisso, na sua própria conversão a bonifrate em auto-retracto, um emprego.
Já há muito que Debord caracterizou a Sociedade actual como a Sociedade do Espectáculo, a sociedade em que todos se tornam figurantes do sistema sob a forma de consumidores passivos de mais-valias simbólicas erigidas em consciência possível, ou melhor, criaturas impossibilitadas de um olhar exterior, de um olhar que descontaminado daquilo para o que se dirige, possa de facto fixar-se nisso de um modo racional e crítico, lógico, liberto. Esse é aliás o único modo de ajuizar sem o pecado mortal do preconceito na vez da tentativa do conceito. Se há uma coisa que Estado Espectacular Integrado tenta forçar é que estejamos sempre dentro do espectáculo e que o exterior do espectáculo seja, para quem o tente, uma asfixia, resistência 24 sobre 24 horas. Na realidade o melhor do estalinismo soma-se ao melhor do capitalismo, o tal capitalismo cultural.
Mas para além da pedra há a pedra que de facto fala, que perora. São os fósseis falantes. São criaturas que servem o sistema justificando sempre de modo eficaz, nos seus palanques de poder constante, porque é que o mais interessante é ficar tudo na mesma para que tudo mude. São pessoas como o Marcelo Rebelo de Sousa e como o Pacheco Pereira. Nunca levam nada até à necessidade da fractura e mesmo perante o corpo fracturado do país propõem as mesmas receitas do poder instalado, resumindo tudo a estratégias de fulanização e grupo. São estes, com outros inimigos irmãos, os pais deste sistema partidário medíocre que prospera.
São doutores como o bolonhês – figura da Commedia Dell’arte que fala um latim incomestível de um modo parecido com o falar de uma turbina – e como o Dr. de Coimbra, que se poderiam classificar entre os antepassados dos activíssimos fósseis falantes da contemporaneidade pós moderna. Falam e não mudam. Falam e dizem sempre o mesmo. Falam e não abrem nenhum horizonte, nenhuma luz, nenhuma fenda no bloco cego dos dias, nenhum caminho que se possa iniciar. São maquilhadores da realidade pobre que temos, mesmo quando fazem avisos á navegação, aquela coisa de ter sempre razão antes dos males acontecerem, vaticinadores de dramas constantes. Também conhecidos por cadáveres adiados, são donos honoríficos de diversos cemitérios em actividade mesmo sem possuírem as chaves das lojas, partidos, instituições e aparelhos ideológicos de um modo geral. Para eles as portas estão sempre abertas. Têm negócio montado constante e não são apanhados em escutas.
A argumentação não é uma forma de pensar que descubra no real, que está podre, por onde parti-lo. O vício silogístico e o charme falante do fóssil fazem dele de facto uma criatura que também se dedica com muita fé e carinho a explicar-nos que teremos de ser mais pequeninos perante o tamanho da dívida, mas que antes portugueses do que apenas pedintes. Mas que seremos nós senão pedintes, a necessitar de ser mais que portugueses europeus e criaturas do mundo? Do que necessitamos é de uma grande fractura e não de ajustes, ou de pequenas melhoras. E essa fractura, não a pregam, os fósseis falantes, porque estão em posição de renda desde há muito. Os seus feudos mantêm-se intocados há décadas e obviamente para eles tudo está certo menos o Sócrates. A única coisa em que acertam é na falta de qualidade do Sócrates, se pensarmos nas casotas em que colaborou para desfear a serra, lá para a Covilhã e se pensarmos que quando fala não diz nada que não seja óbvio e da ordem da tautologia. Mas o argumentativismo de uns e as tautologias de outros, o que ajudam a formar é um colosso inamovível, uma ficção de país cimentada em atavismo e arcaísmo que alimentam de modo moderníssimo. São obviamente menos capazes de fazer mudar que o peixe de prata ou o bicho da madeira. Esses são lentos mas destroem por dentro o que é mofo e estrutura do mofo.
Ora os nossos fósseis falantes são como a pedra famosa. Falam do alto dos seus feitos e por certamente terem estado em espírito com o Gama quando por lá andou, pelos tais mundo que demos ao mundo, a globalizar. Estes não ajudam a uma nova matriz, rende-lhes a de sempre. São na realidade criaturas do antigo regime.
Encantam entretendo entretanto e para tantos. Entre eles e a pedra pátria há um pacto profundo. A pedra anda de história às costas somando reabilitações paredes meias com as construtoras. Eles andam entretendo as gentinhas com a política de bolso – têm respostas prontas para tudo – paredes meias com as grandes empresas mediáticas, públicas e privadas, todas elas de costas viradas para o tal serviço público, apenas simulado.
Fernando Mora Ramos









