Teatro da Rainha

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CARTA ABERTA À MINISTRA CANAVILHAS - sobre os modelos organizativos do teatro -

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Exma. Senhora Ministra Gabriela Canavilhas,

 

Em encontro recente a coreógrafa Graça Bessa teve a gentileza de me dizer que numa audiência que Vossa Excelência lhe concedeu se terá referido que sendo signatário, enquanto companhia, dos documentos da chamada Plataforma do Teatro – creio que uma estrutura informal – apoiaria uma posição sobre as subvenções ao teatro e as modalidades respectivas defendida por tal Plataforma que se traduziria na ideia primária e anti democrática de que todas as companhias de teatro deveriam estar nas mesmas condições de partida nos chamados concursos, o que não corresponde à verdade, pois a nossa participação – Teatro da Rainha – no protesto foi apenas contra os cortes de financiamento anunciados, sabendo-se aliás, por estar publicado e amplamente divulgado (em Livro, no Monde Diplomatique, no jornal Público, na Revista de Eduardo Lourenço, Finisterra, na Revista Adágio, etc., e em inúmeros documentos de trabalho nos últimos trinta anos) o que defendemos.

Em primeiro lugar sou contra os concursos, isto é, penso que são inúteis e que haveria formas mais profundas, e sérias, de determinar o que é teatro do sector público e o que não é, o que são estruturas de criação e o que não são, o que deve ser subvencionado regularmente e o que não deve ser por não ser arte, o que é estável e construtor da democracia e o que é pontual ou tão só barulho das luzes, como se diz, o que é teatro e o que é espectáculo – de algum modo parafraseando Jean Jourdheuil quando afirma que o teatro é grego e o espectáculo é romano.

Sou contra esta inaceitável continuação na pós modernidade da política do circo e do pão, sabendo-se agora que o que mais se come é mesmo comida visiva ou mental, se preferir e que o pão metafórico, e literal, do apotegma implícito, desde que o fast food impera, é ele próprio também apenas circo.

Todos sabemos que os Centros Dramáticos em Espanha e França são estruturas estáveis cujas equipas o Ministério e as Regiões escolhem, que na Alemanha os Teatros de Estado são Teatros Nacionais em todos os Estados Regionais e que todas as cidades têm teatros públicos e mais que um – Pina Bausch estava em Wuppertal e dirigia um Teatro Público. Assim é na Inglaterra, na Holanda, na Finlândia, etc. É simples de perceber que estes países consideram o TEATRO uma parte da democracia, uma parte orgânica. Sem ela a democracia estaria incompleta, como estaria sem o Parlamento – que cobre todas as regiões – ou sem os Tribunais – que também cobrem todas as regiões, ou mesmo sem as Escolas e Hospitais que obviamente são estruturas nacionais. Não é por acaso que o fim de parte da rede escolar, lá onde no interior se diz que não se justifica por razões demográficas, dá o brado que tem dado e não é certo de facto que as recentes medidas tomadas não sejam a favor da desertificação.

O problema é claro: a Constituição diz que as populações e os cidadãos em geral devem aceder à arte e à cultura. O que se pode fazer por duas vias, pela via da aprendizagem da criação e pela via da capacidade de ler as linguagens das artes, pela via do vir a ser artista e pela via da escola do espectador. Ora, em democracia, isso significa que o Estado deve criar as estruturas de materialização destes princípios (a Constituição democrática é de 1976 e estamos longe de praticar o que enuncia) e que estas estruturas devem cobrir o território como instrumento de desenvolvimento (de qualificação, de crescimento “interior”, subjectivo e colectivo, dos portugueses) generalizado. Assim sendo, devem cobrir o território geográfica e demograficamente. Lá onde o interior é pobre e desertificado devem ser instrumento de combate da desertificação e lá onde a demografia é massiva e a barbárie a norma (e estamos a falar das dificuldades conhecidas da educação nas periferias) instrumentos de combate das novas formas de analfabetismo e violência social.

Esta deve ser a posição do Estado e aos governos cumpre levar adiante o que a Constituição afirma e que é democraticamente ainda futuro por vir, UM dado FUTURO. O que não significa que os artistas não desenvolvam nestas organizações programas artisticamente autónomos e que deva imperar uma qualquer homogeneização programática e estética, submetida a objectivos sociais – os artistas cumprem objectivos sociais e culturais realizando projectos artísticos, a arte não é pedagógica por ser pedagogia mas por ser arte.

Há, no entanto, formas diversas de materializar princípios a que todos devem estar obrigados, por exemplo uma postura anti nazi. Por outro lado, sabemos que em cada região há solicitações e imperativos de acção, diferenciados. Obviamente que os artistas, sendo artistas e as equipas de criação sendo equipas, devem submeter os seus projectos a um debate aberto com os espectadores, nos locais de implantação e estes devem ser objecto de uma negociação e contratualização com os governos, caso a caso, verificando-se o seu acordo com os princípios do Estado democrático e o potencial artístico da sua incidência social/cultural – não há projecto artístico que se possa remeter para a insociabilidade ou para a inutilidade social por “razões artísticas”. E tudo isto se mede, em números por certo, mas fundamentalmente em dinâmica real, em movimento comunitário nos ambientes de inserção, em transformação cultural. São estes, os processos abertos da negociação e do debate, formas complementares, uma profissional e técnica, a outra política e democrática, sendo simultaneamente formas do “controle”, isto é, formas de avaliação constantes e formas de animação dos programas nas comunidades de destinatários.    

Em síntese: isso significaria um estudo do país cultural feito com os melhores pensadores culturais, pessoas competentes fora das lides partidárias, sem interesses envolvidos e promover a criação, no plano das regiões diferenciadas – há quem defenda 10, outros defendem 5 ou 6 – de estruturas de acção teatral globalmente capazes de exercer as diversas componentes do todo teatral, com responsabilidades de intervenção nas áreas de implantação e no território nacional, lusófono, europeu e global.

Não estou a defender UMA estrutura por região, as formas podem ser várias e diferentes, elas próprias descentralizadas e complementares, é uma questão de inteligência e racionalidade. Defendo que se perceba o que é a região e que se dê uma resposta racional articulando o existente com o que é necessário inventar. E há muito por inventar porque o existente é absurdamente lacunar e em muitos casos gangrenado. Assim poderíamos falar de FUTURO. Não há alternativa a este desenho que seja interessante, útil e democrática. Este é um desenho com prova histórica em termos europeus e corresponde ao modelo matricial da democracia, de que o teatro fez parte com o Parlamento e os Tribunais. Por estranho que pareça ainda há nessa forma grega um valor prospectivo, sendo verdade que a nossa democracia é, neste aspecto das artes, um simulacro. Hoje em dia, o projecto de um Serviço Nacional de Cultura, nas condições portuguesas, por contágio com a expressão Serviço Nacional de Saúde, não seria mal pensado, já que o nosso atraso é enorme e a situação actual de verdadeiro coma, a desqualificação dos portugueses um mal geral – mesmo os licenciados, e os de últimas levas por certo, são analfabetos culturalmente, dominando mal a língua mãe e por isso tendo limitações de potência de pensar, como diria Agamben. 

A este modelo corresponderia um mecanismo concursivo quase residual visto que o essencial estaria garantido e os concursos corresponderiam apenas ao emergente, àquele território em que se situam os que chegam de novo – repare Vossa Excelência que falo de projectos e não de jovens. Este território seria um território alimentar de toda a estrutura base e, eventualmente, o espaço emergente de gestação de equipas que pudessem vir a responsabilizar-se pelos programas dos teatros públicos, sendo que estes teriam obviamente equipas com contratos a tempo definido, com mandatos predeterminados temporalmente – no máximo três de 3/4 anos. Este esquema de articulação entre teatros públicos e privados – é este o nome, embora muitas companhias, na actualidade, fazendo Serviço Público substituam o Teatro Público inexistente – traria muita estabilidade ao sistema e pouca turbulência catártico/dramática em períodos de concurso, esse actual totobola de ansiedades e promiscuidade. Nada mais democrático nem mais dinâmico. Quem não quisesse entrar neste esquema teria então de ir a concurso, mas de ir a concurso numa parte da estruturação da democracia teatral que não seria da responsabilidade do Estado democrático como orgânica, mas consequência das liberdades civis e portanto da responsabilidade da liberdade individual e colectiva, o que portanto não obrigaria o Estado a qualquer sustentação financeira de tipo integral.

Esta é A proposta EUROPEIA. O resto são discussões informais infundadas, sem base teórica fundada, sem modelo, pura especulação, conversa interminável a que temos assistido vai para mais de 35 anos.

Para que fique claro gostaria de referir porque penso, por outro lado, que os concursos são uma forma de apoio anti democrática e clientelar. Direi porquê:

  1. Os Júris são um conjunto de personalidades reunido aleatoriamente, nomeadas de forma discricionária e que, como conjunto, não são uma equipa, não tendo história nem capacidade de aprofundar a matéria que têm de julgar, não a conhecendo sequer, reconhecendo-a apenas nos formulários, sendo à partida um absurdo a sua existência – só de forma continuada se podem exercer funções que implicam estudo e conhecimento de projectos que, em muitos casos, têm décadas e que implicam matérias tão complexas como a análise de autores, textos, elencos, formas dramáticas e espectaculares, espaços, arquitecturas, linguagens de cena, isto é actividade real no terreno e principalmente a adequação de tudo isso como projecto coerente a uma dada comunidade de destinatários na perspectiva de uma qualificação cultural dessas comunidades e de um aprofundamento das possibilidades de respiração democrática e da liberdade, a qualificar esteticamente.
  1. Em muitos casos – tem acontecido com frequência – as decisões dos Júris são decisões de parte do meio teatral contra outras partes do meio teatral e aconteceu já que membros dos Júris tivessem atribuído dinheiros a projectos em que estavam envolvidos mesmo que fosse indirectamente. Em muitos casos a promiscuidade foi provada e explícita, como muitos evidenciaram em protestos sucessivos sob forma escrita, protestos que caíram no saco roto da irresponsabilidade continuada de diversos serviços, que não reagem sequer ao protesto cidadão numa vulgar política de avestruz.
  2. Eles, os Júris, são um álibi para a fuga do Estado às responsabilidades e só fariam sentido para uma parte residual do sistema, depois da parte estabilizada dar forma à democracia na organização teatral. É um esquema que não tem prospectiva nem dinâmica possível e que está montado para produzir o MESMO, a mesma situação bloqueada, o mesmo atraso, a regressão na continuidade, agora adaptada a novas formas de iliteracia convergente, entre o que o Estado promove, as escolas praticam e muito analfabeto/artista desenvolve.
  3. Julgar projectos e programas teatrais tendo em consideração apenas papéis, é como teorizar sobre gastronomia sem fazer nenhum tipo de prova física de paladares. Na realidade os Júris são como uma espécie de bloco de censores que aprova uns tantos que conhece, que conhece mal outros pois não viu os espectáculos ou nem sequer viu nenhum, não conhece os elencos, desconhece as condições técnicas de trabalho artístico, as espaciais, a história anterior, etc., e que distribui, mais ao menos num registo de reprodução do status quo vigente – seria desejável um status quo de lógica constitucional como acima se defendeu – uns dinheiros que previamente estavam destinados a essa reprodução do sistema incongruente que existe. Os Serviços, hoje em dia, desmontados e a agir sem memória, estão lá para cumprir esse mínimo reprodutor, como peça de uma mecânica indiscutível e fechada.
  4. Resta dizer que julgar os papéis nos formulários impostos, como se fossem um suposto exame de competência informática e de gestão económica releva do princípio de acção mais burocrático e autoritário que existe, já que em nenhuma circunstância encontramos, do outro lado, um rosto e muito menos alguém responsável para esclarecer o que quer que seja, mesmo que fosse apenas responder informando disfunções constantes ou, num outro plano, dando a cara pelas panes e atrasos. Está aliás provado que a informática não tem simplificado a burocracia do Estado, pelo contrário. O que tem sido estudado e confirmado por especialistas. E que este mecanismo, o dos suportes informáticos, tal como tem sido usado, para além de introduzir comportamentos de incompetência constantes e uma distância conveniente do poder para com os candidatos é, como se sabe, o negócio de inúmeras empresas ligadas aos aparelhos partidários, cujos dinheiros poderiam servir a organização da competência dos serviços e os próprios serviços já que, ao contrários dessas empresas de fora, os Serviços têm estes problemas como objectivo, é para isso que existem e não para produzir lucro.

Poderia continuar a evocar outras disfunções do sistema e outros males profundos de natureza ética e ético/estética mas a carta vai longa e creio que suficientemente clara no que ataca e defende, explicitando um caminho, o caminho europeu necessário.

Entenda Vossa Excelência este “papel” como uma contribuição para a mudança necessária. Se assim for sentir-me-ei de alguma maneira útil.

A bem do país e da cultura,

 

Fernando Mora Ramos

 

 

 

Pacheco Liberal Pereira

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Quem te lê, Pacheco? Muito poucos. Muito menos do que aquele número de companhias de teatro e seus espectadores que acusas, sem conhecer, como se fossem todas um único projecto, de delapidarem o erário público, mesmo reconhecendo o nada que recebem e de não realizarem trabalho artístico – deverias saber, até por norma académica, supondo que investigas para fazer história, que não se afirma o que quer que seja sobre o trabalho de terceiros sem o conhecer, sem ir às fontes, o que no caso obrigaria a ver as representações das estruturas de criação, mas, mais que isso, a inscrever no tempo e de modo reflectido metodicamente o que, em muitos casos, perdura quase desde Abril e reflecte políticas de reportório, revelação de autores de qualidade consensual em termos europeus, envolvimento de públicos em cifras que poderíamos referir como ultrapassando o epifenómeno (a tal quantidade, logo apelidada de tribal e circuito fechado, quando globalmente, são dados oficiais, do INE, terá atingido 1 milhão de espectadores em ano recente) e mesmo experiência artística no sentido da experimentação, da tentativa de elaboração de linguagens e do sucesso relativo de tudo isso, experimental justamente, erro a repetir melhor ou pura falha.

Estas estruturas representam a comunidade por vir – expressão de Agamben que, imagino, te dá vómito, mas é um filósofo reconhecido nos contextos em que isso tem um valor -, aquela que será alternativa a esta democracia tão corrupta, vulgar, entretida no aleatório e insignificante, de tal modo amputada – na liberdade de cada um, nos direitos económicos, na justiça, na liberdade culta, nos direitos sociais, no ensino e sua qualidade, na qualidade da informação e dos jornais, das televisões, amputada da prática da verdade - que teremos de questionar o facto de ser ou não ser democracia. Será? Viveremos em democracia? E que és tu no meio dessa amputação senão o exemplo mais paradigmático do sistema da amputação, do tal centro ambivalente? O que te mantém à tona mais que isso? Mesmo não o representando dele te alimentas alimentando-o, sendo esse o vínculo profundo ao esquema clientelar pluripartidário que impera e que uns tantos servem servindo-se em todo o tempo e em todo o terreno.

A alternativa desejada será democracia por certo, isto é, será onde e quando a livre expressão de pensamento, tendo a forma que tiver, venha a ser o resultado da generalizada capacidade cultural de cada um, inscrita no seu trajecto de vida potencial, na sua história singular e única e como espaço público, ambiente colectivo e comunitário. O Estado, mais que policial – e os seus vigilantes sistémicos deveriam clamar menos por isso – deveria ser cultural, propiciador da possibilidade - o mais rica que for, nada a ver com o eduquês mas também nada com o elitês e o conformês ou mesmo com o mercadês - de um caminho individual para todos. Todos, repito, todos.

Como as coisas são, é um tipo de totalitarismo mediática de massas, mais ou menos soft – ou sociedade hipermassiva de consumo, é o mesmo - que está aí, que todos os dias vem e tu representas Pacheco, militante activo desse estado de coisas, convencido que abres o debate onde ele não se inscreve nunca porque, pelas razões culturais – que a arte ajuda a superar – que conheces, o espaço público como espaço crítico não existe. Isto é: não existes como aquilo que supostamente és, alguém que pensa e critica produtivamente, parte dessa constelação comunitária chamada espaço público crítico, mas como aquela pequena estrela televisiva que “manda umas bocas” mais ou menos qualificadas, pela simples razão que o teu alinhamento político e o teu talento de bastidor te criaram não a cátedra que eventualmente outro percurso te teria permitido, mas o lugar de opinian maker no aparelho mediático, senhor e servo. Mas farás opinião? Alguém te segue? Quem te lê? Mas não, tu o que és é objectivamente – usavas muito a palavra - um intelectual orgânico do Grande Irmão e portanto apenas te interessa a ordem que o Grande Irmão faz proliferar no mundo. Esta ordem em que vivemos e que em Portugal caminha para uma quase insolvência da pátria. O país, a decadência, és tu, este socialismo é também o teu liberalismo, mais social-democrata às quintas, mais liberal selvagem às terças, sempre na cauda das circunstâncias e das imposições da economia – da economia que vocês chamam economia mas que é mais um universo contabilístico, financeiro, que um universo económico.

É contra esse estado de coisas que as estruturas de criação e o teatro tentam fazer o seu trabalho, um outro país.

E quem és tu Pacheco para os insultar? Quem te cria a coutada mediática de que és proprietário, TV, Jornais e bancada parlamentar? És um eleito, a tua representatividade é outra? Mas quem te conhece e quem na realidade te elegeu? Para além do número real de portugueses que te elegeu, um número muito pequeno, ninguém votou em ti, Pacheco, votaram no teu Partido, o que é diferente. Na realidade tu não és um representante puro dos eleitores, tu és apenas um eleito do sistema. É por estares num partido que te elegem, e não por quem és. Para seres eleito por quem és, o tal espaço crítico público teria que existir. E contigo estriam outros, qualificados e divergentes, porque o sistema seria livre, capaz de inscrição crítica da divergência crítica como respiração sistémica, como génese constitutiva.

Se votassem em ti os poucos que agora te lêem, claro que entenderias que, na realidade és uma minoria ainda mais pequena do que a minoria que te elegeu, uma minoria como aquela que segue os teatros entre quem o faz e quem frequenta, que é obviamente mais do que aquela que atacas, a tal subsidiodependente, mas que deu e dá há décadas um sinal de esperança.

A luta pela existência de um espaço público dedicado às artes é factor de futuro, particularmente no país iletrado e intelectualmente atávico que somos, o tal que não te lê ou que te lê mais ou menos na mesma medida em que é o mesmo que vê os espectáculos das estruturas de criação que insultas. E sabes para que vivem os teatreiros, para além do direito que têm a escolher uma vida, um modo de vida? Para que exista mais gente a ler-te e para que quando as pessoas votarem – vale o que vale o voto, não é Deus nenhum como sabemos, nem um absoluto inquestionável -, não votem apenas numa nebulosa laranja, mas votem em ti, por te conhecer sabendo ler-te. Por acharem que escreves ou pensas bem e até pensas coisas em que não tinham pensado. Esse é o desígnio dos que fazem teatro: a ampliação sem limite de um espaço de liberdade culta, de circulação de ideias, de partilha sensível e não apenas comerciante, de ideias feitas ou de ideias pagas, ou de ideias para grudar a ideologia do sistema no seu cimento inquebrável e eterno, como a publicidade promete.

Pois é meu caro Pacheco Pereira tu não és subsidiodependente, nem ganhaste dinheiros públicos significativos – um salário teu mensal daria para a folha salarial de uma microestrutura - nunca foste funcionário, nem te calharam dinheiros europeus no bolso, nem ganhaste os lugares onde esses dinheiros circulam em fabricações de listas de deputados a não ser por mérito. Os teus dinheiros, para além dos herdados, nasceram todos da grande actividade produtiva e empresarial que desenvolves. Aliás, o que é a celebridade senão uma empresa de novo tipo?

E há quanto tempo nos massacras com a tua opinião. E ela tão desinteressante, tão média afinal. Ainda tentei entrever qualquer coisa de interessante no teu comentário apressado ao protesto das companhias de teatro mas nada, nada por onde pegar intelectualmente, nada raciocinado, pensado, apenas afirmações, respostas prontas a perguntas que não foram formuladas sequer, um esquema conhecido e velho, afirmativo tão só. Na realidade transformaste-te no aparelho ideológico de ti mesmo e atingiste aquele estado de celebridade mediática que roça constantemente a irresponsabilidade como uma prática sem recuo, um direito adquirido. Podes de facto dizer o que quiseres, o que te der na bolha. E o que dizes é coincidente com a expressão mais vulgar do que o mercado impõe como clichés opinativos, neste caso o resultado da pura maledicência preguiçosa, daquela que julga por apetite circunstancial, por dislate, por fastio militante, por espírito de classe, por conservadorismo. Em matéria de reflexão sobre política cultural vale, o que disseste, zero. Apenas mais uma voz vulgar, como essas que abundam nos comentários às notícias de jornal e feitas on line, tão imediatistas, tão incontinentes e sem fundamento. Sempre a correr atrás do mesmo quando o mesmo, bloqueado pela falta de perspectivas ideais, caminha alegremente para a catástrofe.

Enfim, que queres tu Pacheco?  

 

Gosto e política cultural

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O estudo de Augusto Mateus pôs dedos na ferida: a indiferença do governo quanto às actividades culturais artísticas, por um lado e a explicitação da diversidade constitutiva de um sector económico feito de três partes distintas - e não amalgamadas num todo incaracterístico -, 1) a criação artística e as suas tradições disciplinares patrimoniais, 2) as indústrias culturais e 3) a dimensão criativa própria das mercadorias, na esfera lata do mercado, o design de objectos de consumo.

Convém aliás aqui clarificar que a dimensão criativa de actividades industrializadas, que obedece à satisfação de lógicas massivas de gosto elas próprias induzidas pela estratégia quantificadora do marketing que promove os diversos produtos na relação de concorrência, nada tem a ver com a actividade artística, esta desligada de objectivos imediatos, destinada ao fruidor cidadão potencial, solitário ou em assembleia, a públicos mais iniciados e não ao consumidor perdido na massa – uma, virada para o humano, a outra, para o mercado. Uma coisa é a linguagem imprevisível da criação artística, cujos códigos de leitura têm de ser reinventados sucessivamente porque não se trata de dar a ler algo já lido, outra coisa é a aplicação de normas de gosto estandartizadas para satisfazer padrões de vida que encontram na sofisticação do design uma dada exibição de status, particularmente através da lógica das marcas que, no presente, estabelecem uma norma geral de comportamento e sinais exteriores de troca simbólica consumível e ideológica: a aparência como teatro de uma essência possível. Desde que a sociedade ganhou este carácter de democracia massiva e falsamente igualitária, que as classes médias chegadas de fresco – os “parvenus”, extraordinários em Marivaux -, têm imposto as suas referências de “mau gosto” como bandeira visível da sua própria ascensão vencedora exibida como gosto dominante. A diversidade, neste aspecto, não passa de um simulacro e o”mau gosto”, enquanto expressão de um poder da quantidade, é de facto, esmagador.

Nestas coisas, o respeito das tais minorias revela-se no plano de uma clara inveja social, confundindo-se muitas vezes aquilo que é de ordem estética com aquilo que é de ordem elitista. Não há “bronco” nenhum que não apelide de elitista, não aquilo de que não gosta porque formatado pelo tal “mau gosto” que o impede de gostar - no plano do juízo funciona na mesma zona em que se pode pensar o estético, o gostar não gostar dependente da comunicação imediata – mas aquilo que ele entende que, não percebendo, não passa de algo elitista que a tal democracia igualitária tem de liquidar para que, nivelando tudo pela tal lei do tudo nivelado pelo mesmo, tenhamos uma ordem democrática do gosto, um gosto comandado pelas massas médias e remediadas. Este pratica-se contra as veleidades aristocráticas do estético, identificadas com as tais elites que são perniciosas e a que se associam os desgraçados dos artistas, na realidade, mais artesãos que criaturas mundanas – artesãos do corpo e cabeça, das linguagens do enigmático. A ideia de “uma arte elitista para todos” não lhes passa pela cabeça.

E o problema é que o poder subscreve este ponto de vista não assumindo desígnios estéticos na ordem pública – o que é tido como ingerência, como se dar a ler Camões a sério fosse uma imposição e não um modo de combater a ignorância e de permitir a fruição da beleza. Do mesmo modo que descrimina numa política a importância da ciência como factor de desenvolvimento libertador – que não o é em si, pelo contrário, o que justamente implica a marca orientadora de uma política – é imprescindível discriminar, numa política, a cultura como forma de fomentar as actividades estéticas da criação artística, que não têm um quadro de rendibilidade imediato pois não são realizadas para nenhum mercado, mas são actividades humanas essenciais, aquelas que no fundo identificam no ser os seus objectivos humanos – ainda recentemente José Gil falou desta dimensão ontológica da criação artística.

Será que isto não entra pelos olhos dentro? Mesmo a actividade artística regular, como a dos teatros, está mais próxima daquilo que enquanto actividade estética caracteriza Os Lusíadas do que daquilo que vai no design dos móveis da IKEA. Não há relação entre as actividades do gosto formatado e a invenção artística. D. Quixote, por muito que o formatem e concentrem e imitem e reduzam a sigla e sinopse, não dispensa a leitura, essa actividade sem rendibilidade imediata – exemplo radical é o romance de Joyce agora editado, Finnegans Wake (15 anos levou Joyce a escrever o romance inacabado e agora mais de trinta levou o estudioso que fixou o texto para uma leitura possível).

Nada compro nem vendo nas horas perdidas da leitura, perco tempo e dinheiro – a leitura é tão “inútil” quanto a criação e tem os mesmos vícios. Mas ganho algo, ganho até inteligência criativa – ela anda aí a tal artificial, mas não funciona sem mão - aplicável a lógicas de exercício laboral dedicadas à economia. Mas estas não são nem de consequência directa, nem de medida imediata, não são mensuráveis. Será que isto não se entende? Não se entende que é de outra esfera e que é com esta esfera que uma política cultural do artístico se tem de entender? Uma política cultural é uma política da estruturação da criação artística e é uma política da leitura, das capacidades de ler a complexidade actual das linguagens. E é também uma política da relação umbilical das duas coisas.

 

Ensino artístico e helicópteros

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Portugal é um país de incongruências. Esta das contrapartidas imaginárias dos negócios fabulosos dos helicópteros e submarinos não é infelizmente apontada diariamente como um factor de acrescento exponencial de défice ao défice, é mesmo escondida e apenas a investigação jornalística a traz à tona. Como se nestas coisas dos militares o escrutínio dos dinheiros públicos chocasse com uns restos de nacionalismo serôdio remetendo para as nuvens da identidade pátria um inevitável secreto da coisa – a defesa da Pátria o que será agora que Castela nos invadiu de maçãs calibradas? E também que o mar deixou de ser um ponto de partida sendo antes uma fronteira movente (com o aquecimento global) e para uns tantos visionários uma zona económica (é ainda a ideologia do progresso a falar e a omitir o seu cortejo de atrocidades). Fala-se, a propósito de zona económica, de energia das marés, de aquicultura, de petróleo ao largo de Peniche, etc., já que a sardinha e o carapau, equivalente gastronómico do nosso verde rubro ser, caminham para a extinção. É certamente um Portugal que acaba. E que Portugal fica, mesmo supondo que com helicópteros e submarinos, um Portugal centro comercial, um Portugal turístico?

O mais grave é que nestes assuntos nunca se conhecem os meandros até ao fim, nunca se acede a uma explicação racional e a racionalidade não tem sequer espaço de afirmação num terreno que, no fundo, é matemático, estatístico, de objectividade absoluta, e que deveria transparecer por si mesmo dada a sua natureza técnica. Mas nada mais claro que, dos 12 helicópteros absolutamente necessários, apenas voarem seis enquanto voarem, pois não havendo manutenção, nem peças suplentes, vão parar por certo – haverá acto menos patriótico do que este? Não só porque há seis helicópteros que impedem a cobertura do território nacional por este tipo de vigilância e socorro, mas fundamentalmente porque os dinheiros públicos não são de alguns, e também não são dos consumidores como se costuma dizer, são do país, deveriam ser de um projecto futuro de país e esse, nas circunstâncias miseráveis da actualidade ético/financeira é que conta, sendo o único vislumbre de algo mais do que o nevoeiro lamacento em que nos movemos. Na realidade estes negócios provam duas coisas: que alguns se servem deles para enriquecer as contas privadas e que os partidos do centro e da direita procedem com a mesma incompetência em nome da tecnocracia e da competência de gestão. É exactamente o contrário que sucede: são incompetentes do ponto de vista técnico e são incompetentes do ponto de vista gestionário mas, mais do que isso, atentam contra a integridade territorial e contra as necessidades futuras do país.

E o Ensino artístico? É que os dinheiros nacionais são solidários. E o que se gasta mal impede a libertação de potencialidades de crescimento futuro e de aprofundamento da democracia que dificilmente passam por investimento em defesa ou em instrumentos de guerra. E entre nós o que não tem direito de cidade, ainda não tem, é a cultura. A começar por Os Lusíadas, expulsos de um verdadeiro convívio com os portugueses – alguns resolvem isso com um regresso à memorização obrigatória do hino nacional – e a acabar numa literacia que, passando por Bolonha, despreza tudo o que não seja pragmaticamente ligado a lógicas de emprego e a funcionalismos de inserção quotidiana, em suma, desenvolvendo um tipo de licenciaturas iletradas e incultas.

Haverá coisa mais absurda do que incluir o Ensino Artístico nos Politécnicos e em formações profissionais de nível secundário? Só neste país de corporações. E porque será? Porque os decisores são incultos e porque os empregados do sector preferem que não se mexa muito porque temem que piore o que é péssimo. E assim vamos cantando e rindo.

O Ensino Artístico, o vocacional em particular, como se sabe, necessita de condições de excepção para se afirmar. Por estranho que pareça era isso que se tentava no Conservatório Nacional no período experimental de 1970 a 74 (interrompido pelo 25 de Abril) sob a protecção da Dr.ª Madalena de Azeredo Perdigão e com a tutela de Mário Barradas – é altura de lá voltar, a essa tentativa paradigmática. Na realidade não eram as carreiras, nem os horários, nem os docentes empregados no sistema que determinavam os objectivos, muito menos os poderes fácticos dentro das escolas. Era uma verdadeira experiência, uma experiência liberta de lógicas de carreira, de combates de horários ligados a salários, de oportunismos corporativos e de uma gestão do tempo marcada pela partilha dos poderes de facto sempre a fazer vencer as lógicas do saber empalhado, da mastigação retórica. Não há nada mais absurdo que não entender que o Ensino Artístico deve ser dirigido por artistas e por profissionais em exercício da sua arte. E que o tempo principal numa escola de artes é o treino, a relação entre a técnica e a mente, entre o corpo e o pensamento: uma casa do exercício. E que isso nada tem a ver nem com televisões nem com a escola aberta ao ruído vulgar da realidade. São escolas que têm de se fechar para se abrirem à contemporaneidade e que só o podem fazer num contacto permanente e privilegiado com os clássicos. Isso não se faz em Politécnicos como o nome indica por si. Faz-se em escolas artísticas por inventar e numa relação com estruturas de criação modelares. É assim na Europa, do Conservatório Parisiense à escola do Teatro Nacional de Estrasburgo (com grande impacto na Europa), à Escola do Piccolo Teatro e às escolas berlinenses. Complementadas pelo ensino universitário nas áreas adjacentes de perfil humanístico e mesmo nas profissões ligadas à produção e à gestão.

Uma grande reforma era possível com o dinheiro das contrapartidas do negócio dos helicópteros e muito sobrava para outros voos. 

 

 

 

Ler, tresler e ruminar

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Aprender a ler é um negócio? E ser capaz de ouvir, uma indústria criativa? E ver para além da superfície das imagens uma dádiva do mercado? E criar ficções, objectos, uma empresa em nome individual? E ouVer, como acontece ao fruidor interdisciplinar gerado no teatro e na actualidade imerso na babel dos signos, não será condição de constituição da cidade baseada na ideia de cidadãos esclarecidos porque capazes de ler/ouVer? E a vida lida será um empréstimo contraído para o tempo da nossa “eternidade”, a pagar em prestações regulares? Isto é: ler alfabetizadamente não será ler para além da soma das letras a complexidade de fenómenos, à superfície e no que são camadas até às raízes, em níveis semânticos e estilísticos diferentes, cada fruidor a sua obra? Nas igrejas, as sobreposições de estilos e épocas, vêem-se à vista desarmada, mas na nossa realidade, singular e massiva, ocupada pelas imagens, a relação entre visível e invisível é opaca. É neste sentido que falando-se de uma ditadura do presente, podemos entender que a percepção da realidade como a da sua superfície, acaba por funcionar como um bloqueamento do acesso e conhecimento das causas dos fenómenos, não imediatamente discerníveis nas suas implicações estéticas e temporais. Estaremos condenados a vagar na espuma dos dias? Em boa verdade a realidade impõe um modo de ser lida pelo poder das suas impostas hierarquias de visibilidade: tudo se converteu em publicidade na medida em que a comercialização de todas as esferas do espírito levou o mercado à própria configuração dos afectos como mercadoria – nada mais explícito, neste aspecto, do que a indústria do sexo.

O que quero dizer é que o potencial “descodificador” da realidade é um “analfabeto” de novo tipo e que saber ler, os textos e os subtextos, é essencial à capacidade de descodificar os outros sistemas de comunicação constitutivos do real, entre a sua virtualização e a própria “realidade” – o que não dependerá da oferta de descodificação do visível como algo que se compra e vende, pois a lucidez não é rendível, ao contrário do corpo, essa matéria-prima equivalente do ouro.              

A cidade não necessitará de um cidadão que tenha as qualidades de um criador no seu trajecto de socialização? A possibilidade da partilha do sensível numa escala socializada e harmonizada estará condenada à oferta e à procura quando a procura apenas cresce como irracionalidade estimulada pelo marketing da venda? Em suma: face à força selvagem do “totalitarismo sígnico” e da “comunicação” orientados pelas paisagens da guerra dos lucros, do fluxo simbólico que se “sofre” no totalitarismo consumista, não terá a escola, e as artes - abertas a todos, em todos os horários e em todos os espaços – o papel de nos fazer viver um mundo em que a humanidade dite as regras?    

 

 

 



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