Tal como sublinhava Antoine Vitez, só há dois tipos de teatro, o abrigo e o edifício (...). O edifício significa "eu sou o teatro", enquanto que o abrigo sugere o carácter transitório dos códigos de representação. O novo espaço teatral que o Teatro da Rainha quer construir é, em si, um misto destas duas correntes. Edifício, embora com custo baixo por metro quadrado e com incorporação de materiais pré-fabricados, mas também Abrigo, propiciador do efémero e do transitório e das outras vertentes do espectáculo vivo, sobreviventes do assalto mediático televisivo, onde, citando de novo Vitez, o criador não é apenas um arquitecto do palco; é também um arquitecto da sala; quer dizer que ele introduz o público no mundo que quer ver representar.
Um espaço apto a transformar-se pela magia do Teatro num Todo e num Tudo – precário e perene, grande e pequeno, clássico e inovador, tradição e modernidade numa ampola da memória. O Teatro tornou-se monumento urbano. Fiel à história, este novo espaço assume que a praça pública é uma paisagem para o Teatro e vice-versa. Signo contemporâneo que se inscreve na malha da cidade, procurando cumprir aquilo que no Plano Director Municipal se assinala como uma zona de equipamentos colectivos e criação de novas centralidades e respondendo também a uma necessidade e a uma carência óbvias: Caldas da Rainha não possui neste momento qualquer sala de espectáculo de média dimensão, digna desse nome!... E o preço estimado de construção, sendo, apesar de contido, um pouco mais alto do que o patamar inicialmente previsto, vale, nestas circunstâncias, a diferença, até pelo que poupará futuramente em manutenção. E se for viável, um reforço suplementar, ainda que mínimo, mais consolidada ficará esta vertente específica. O Teatro da Rainha possui uma larga experiência na equacionação e resolução destes problemas. Foram os membros da sua equipa que estiveram na base da delineação das grandes linhas de força do programa de recuperação e restauro e respectivo acompanhamento posterior do Teatro Garcia de Resende em Évora (no âmbito do CENDREV, sociedade por quotas de que o Teatro da Rainha detinha 50%), da organização da Trienal de Arquitectura – "O Espaço Teatral" durante Évora – Capital Nacional do Teatro em 1991, cujas conclusões contribuíram fortemente para enformar os pontos de vista estabelecidos para o novo complexo teatral que agora se apresenta.
A reflexão sobre os lugares teatrais emana da prática. Foram os homens de teatro que propiciaram o desenvolvimento dos lugares de criação teatral, não os arquitectos, nem os políticos. Naturalmente destes últimos, espera-se que usando os instrumentos de decisão que lhes estão cometidos, possam favorecer o aparecimento de estruturas que sirvam a Comunidade na perspectiva do Serviço Público e do incremento da Cidadania.Quanto a este projecto, em concreto, pudemos contar com a competência, o empenho, a disponibilidade e o entusiasmo do Arqtº Nuno Lopes (ex-director do Gabinete do Centro Histórico de Évora e nessas funções supervisor da intervenção no Teatro Garcia de Resende, coordenador do processo de classificação pela UNESCO do Pico como Património Mundial e actualmente idênticas funções na candidatura a apresentar pela Universidade de Coimbra), cujas soluções e sugestões, resultantes de um diálogo intenso e produtivo, corporizaram uma proposta progressivamente afinada que nos parece exemplar, pela grande eficácia funcional, pela elegância formal e conceptual de volumes e de inserção, e pela resposta cabal às nossas necessidades de trabalho quotidiano nos domínios da produção, programação e formação. Um novo espaço de trabalho teatral significa uma ferramenta imprescindível de desenvolvimento do nosso trabalho, um instrumento afinado de aprofundamento da relação com o público, uma sala de referência no contexto nacional e uma marca contemporânea na cidade e na região (com 330 mil habitantes), aberta ao acolhimento de outras expressões artísticas.
O projecto representa já um paradigma de um novo tipo de espaço teatral, versátil e sem gastos faraónicos. A Câmara Municipal de Caldas da Rainha garantiu um suporte importantíssimo ao disponibilizar um terreno e o pagamento de 50% do custo de obra.Após reuniões com responsáveis de três sucessivos governos, importa agora ao longo deste ano, assegurar um apoio de financiamento por parte do Estado, por forma que os projectos de especialidade possam avançar e estar assim apto a concorrer no âmbito do próximo Quadro Comunitário e do Plano Operacional da Cultura. Assim, compreender-se-á que talvez em breve, esperamos vir a dizer, tal como Dullin que "o mais belo Teatro do Mundo é" (sempre) "aquele onde nós trabalhamos..."







